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O pecado de todos nós

O pecado de todos nós

“Quem vive num mar de aflições iguais às minhas, como não há de considerar a morte lucro?” (Sófocles, Antígona)

 A recente cobertura televisiva do velório coletivo das vítimas do voo da Lamia que matou 72 pessoas nas montanhas da Colômbia (incluindo os jogadores do time Chapecoense e 21 jornalistas), no dia 3 de dezembro, nos convida a algumas reflexões. O futebol, que tanto atrai os brasileiros, surge inserido em uma tragédia.

Segundo o IBGE, 97% dos lares brasileiros têm aparelhos de TV. Destes, mais de 30% assinam sinal fechado. Nos dois casos, o velório foi transmitido ao vivo, das primeiras horas da manhã ao meio da tarde. Na Rede Globo, por exemplo, a cobertura consumiu mais de sete horas. Quem tem TV paga também não conseguiu fugir do drama chapecoense. As duas emissoras de noticiário, Bandnews e GloboNews, também fizeram a transmissão.

Em plena manhã de sábado, as câmeras puxavam zoom das famílias debruçadas sobre os caixões dos seus entes queridos, sem qualquer privacidade para o reencontro e a despedida. Entrevistas feitas por celulares com familiares das vítimas e até mesmo a procura, nos restos do avião, dos pertences daqueles que partiram, fizeram parte da cobertura em outros programas.

Do ponto de vista da audiência, a estratégia deu certo. A cobertura do velório das vítimas da tragédia rendeu 18,1 pontos à Globo na Grande São Paulo, entre 9h14min e 15h01min, conforme o site Notícias da TV. Trata-se de quase o dobro dos 9,7 pontos que a emissora teve no mesmo horário nos quatro sábados anteriores. Record e Band também tiveram incremento, sendo que a primeira registrou crescimento de 40%.

O exercício do jornalismo é repleto de escolhas éticas. Como na tragédia grega de Sófocles, somos chamados a tomar decisões como a que imortalizou a personagem Antígona. Para assegurar o sepultamento digno de seu irmão Polinice (filho da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta), ela desafiou as ordens de Creonte, o que acabou custando também sua vida.

Para evitar excessos, é importante que estejamos atentos a documentos que orientam nossa conduta profissional. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, atualizado em 2007, diz que é dever do jornalista respeitar a privacidade do cidadão. Ainda mais, o jornalista deve “evitar divulgar fatos de caráter mórbido e contrário aos valores humanos”. Lamentavelmente, a sociedade brasileira ainda não permitiu que a categoria tenha um Conselho Federal, que poderia ordenar e fiscalizar esse tipo de cobertura. Alega-se censura. Na verdade, seria uma salvaguarda para si e para os profissionais adeptos do bom jornalismo. Desta forma, não seremos, como na canção de Cazuza, “canibais de nós mesmos, antes que a terra nos coma”.

Salomão de Castro, Presidente da Associação Cearense de Imprensa (ACI) e da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Ceará


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